Entrevista - Pedro Cunha

Painel da música

MÚSICA SEM PRECONCEITO

Com uma larga experiência musical Pedro Cunha é sem dúvida mais que um tecladista, é também um produtor musical que esbanja talento em seus trabalhos. Nesta entrevista exclusiva à Tom Musicalstudio pudemos conversar sobre um desafiante obstáculo para alguns músicos, que está em aceitar as novidades, sejam elas sobre novos estilos musicais que surgem dia após dia ou mesmo com a inovação constante de timbres. Iremos descobrir também um pouco sobre a profissão de produtor publicitário, que são aquelas pessoas responsáveis pela música que ouvimos diariamente nos comerciais de tv e rádio.

Gostariamos que você fala-se um pouco sobre você, seus trabalhos, produções, etc.

Meu nome é Pedro Cunha, toco piano, teclado e sanfona. Comecei meus estudos musicais cedo, entrei para o curso de composição na UNICAMP onde cursei por dois anos e depois me formei em bacharelado pela Berklee College. Atualmente toco na banda de apoio da Luciana Mello e sou produtor publicitário, ou seja, produzo trilhas, jingles, spots. Alguns dos artistas com quem já toquei e gravei incluem: Celso Pixinga, Jair Rodrigues, Wilson Simoninha, Paulinho Boca de Cantor, Jair Oliveira, Gilliard.

O que você considera ser mais importante para um tecladista do ponto de vista musical?

Acho importante que como músico, de uma forma geral, estejamos abertos para ouvir de tudo um pouco, independente do estilo. O importante é aprender a diferenciar o que é bom e usar esse crivo de qualidade como parâmetro para nos aperfeiçoarmos. Eu gosto do desafio que tocar em diferentes estilos representa, isso tem me ajudado muito na “estrada”, gravando ou produzindo.

Mas, por exemplo, como você interpreta essas mudanças na música popular, principalmente sobre o aspecto da revolução de timbres de estilos que dia após dia se apresentam em fusões cada vez mais incorporadas a tecnologia?

Se você já tem uma pré-disposição para ouvir e aceitar estilos diferentes, você com certeza se deparou com orquestrações e timbres diferentes, e isso tudo é positivo para uma boa mistura das coisas, o segredo é saber entender como os instrumentos “originais” funcionam antes de começarmos a usar seu sons “emulados”, por exemplo, os VSTs, samplers, teclados e etc....
Sob esse aspecto a tecnologia é uma ferramenta excelente para termos acesso a uma infinita gama de sons e possibilidades! Agora, só o bom senso é que vai determinar o que serve para o que. Acho positivo o uso da tecnologia, mas é preciso entender a música primeiro, deixar que ela te indique qual caminho você vai tomar para uma produção, ou arranjo, ou orquestração, ou que timbre vai escolher para tocar ao vivo.

Você considera que compositores modernos como Stockhausen, Cage, Copland poderam melhor ser compreendidos a partir da música popular nesta atual circunstância?

A compreensão da música de compositores como os que citou, e de outros envolvidos em música eletroacústica, contemporânea, experimental ou qualquer outro estilo que seja, está muito mais relacionada ao quanto o ouvinte consegue se desprender do que ele está habituado a ouvir e se deixar levar por um instante para esse “novo” universo, esse novo som. Essa semana mesmo me deparei com algo totalmente inusitado e novo, uma quebradeira de jazz tocada por uns japoneses experimentando o conceito “8bit”. É interessante entender como as pessoas experimentam as barreiras e levam suas interpretações adiante. Se a sua pergunta quanto a compreensão desses compositores é facilitada pelo avanço da tecnologia, acredito que não. E acho que a gente não tem que analisar tudo tecnicamente e sob o ponto de vista profissional. Assim como outras artes, a música tem que tocar o ouvinte, só isso, não importa quão complexa ou simples ela seja.

Concordo plenamente com a sua opinião, porém isso me despertou uma curiosidade. Gostaríamos de conhecer quais são suas influências. São músicos, bandas, o que realmente faz “tocar profundamente o músico Pedro” em seu estilo ser?

Influência é o que não falta !!! (risos)... E já que a gente está falando de estilos diferentes, vou citar um pouco de cada. Dos clássicos, a interpretação de Glenn Gould nas “Goldberg Variations”, as “Bachianas” de Villa Lobos me tocam, em especial “Trenzinho Caipira”, o CD Debut de Martha Argerich, a maneira como ela alia o virtuosismo com interpretação sublime. No jazz não tem como não falar de Bill Evans, Herbie, Lennie Tristano, Keith Jarret e Brad Mehldau, isso para citar os pianistas, sem contar caras como Pat Metheny. Já partindo para o soul e ReB, bandas como o Earth Wind and Fire, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Nina Simone, e tantos outros. O som pop de Joss Stone, The Roots, Jamiroquai. Para não deixar de fora a música brasileira, sem sombra de dúvidas, Tom Jobim, Toninho Horta, César Camargo, Dick Farney, Milton, Banda Black Rio e por ai vamos....

No trabalho como produtor publicitário o que te inspira na hora de produzir e compor trilhas? É muito difícil trabalhar nesta área, conte para gente como é explorar este lado criativo da música?

Não é um bicho de sete cabeças, mas requer um grau de conhecimento do ramo e principalmente, entender o que o cliente procura e o que você precisa vender com aquela trilha. Muitas vezes a gente recebe referências do que o diretor do filme gostaria de ouvir ou de uma música para gente seguir como linha de trabalho, aí o lado criativo fica em função disso. Quando o tema é “livre”, ai é achar o beat do filme e tentar contar toda a história musical em trinta segundos (riso).

Para finalizar, gostaria que deixasse uma mensagem aos nosso alunos e músicos que acessam nosso site.

Antes de mais nada gostaria de agradecer a oportunidade pela entrevista, é sempre bom poder trocar experiências com outros músicos. E acho que a minha mensagem principal é essa: estar aberto para ouvir, sem preconceitos e a partir daí começar a formar opinião sobre o que é bom e o que não é. O carinho com a arte também é importante, o tempo que você se dedica ao que faz e o comprometimento que você tem é retribuído na mesma proporção. Estude com um pouco mais de concentração, ouça música de uma forma mais jocosa e toque com mais vontade e sem medo de errar! Abraços e boa sorte a todos!
 

Entrevista de Aníbal Garcia cedida exclusivamente à Tom Musicalstudio.
Fotos: Divulgação.

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